

Para treinar modelos de inteligência artificial, milhões de livros físicos foram digitalizados. Em muitos casos, o conhecimento foi preservado, mas o livro deixou de existir. O que essa escolha revela sobre a sociedade que estamos construindo?
Por Mayka Schneider | Especialista em Marketing no Ambiente Digital
Vivemos um momento curioso da história. Nunca produzimos tanto conhecimento, nunca tivemos acesso a tantas informações e nunca desenvolvemos tecnologias tão sofisticadas para preservar conteúdos. Ainda assim, talvez estejamos diante de uma das maiores contradições da era digital: para alimentar a inteligência artificial com conhecimento humano de alta qualidade, estamos destruindo justamente parte do patrimônio que construiu a nossa memória coletiva.


Essa afirmação pode parecer exagerada, mas não é. À medida que a internet passou a ser ocupada por conteúdos produzidos ou editados por inteligência artificial, livros publicados antes da popularização dos modelos generativos ganharam novo valor estratégico. Eles representam linguagem genuinamente humana, diversidade de escrita, revisão editorial e conhecimento produzido antes da expansão dos conteúdos sintéticos. Tornaram-se fontes valiosas para treinar os modelos que hoje transformam a forma como pesquisamos, escrevemos, aprendemos e trabalhamos.
É nesse contexto que surge um dos episódios mais emblemáticos da corrida pela inteligência artificial. Documentos judiciais revelaram que a Anthropic, empresa responsável pelo Claude, adquiriu milhões de livros físicos para digitalização em escala industrial. Em muitos casos, utilizou um processo conhecido como digitalização destrutiva, no qual a lombada é removida, as páginas são separadas e alimentam scanners de alta velocidade. Depois da digitalização, muitos desses exemplares deixaram de existir.
O texto sobreviveu. O livro, não.
Sob a perspectiva tecnológica, o processo pode parecer lógico. Digitalizar amplia o acesso ao conhecimento, reduz perdas e preserva informações que poderiam desaparecer com o tempo. O problema não está na tecnologia. A reflexão começa quando a preservação do conteúdo passa a justificar a eliminação do objeto que carregou esse conteúdo durante décadas ou até séculos.

Um livro nunca foi apenas texto. Ele também é a história da sua edição, da impressão, da escolha do papel, da encadernação, das marcas deixadas pelos leitores, das dedicatórias escritas à mão, das anotações nas margens, do desgaste provocado pelo tempo e do contexto histórico em que foi produzido. Cada exemplar guarda uma biografia silenciosa que nenhum arquivo digital consegue reproduzir.
Tudo isso também comunica. Tudo isso também é cultura.
É justamente por isso que o debate precisa ser ampliado. Dizer que a inteligência artificial destruiu os livros seria uma simplificação confortável. A inteligência artificial não comprou exemplares, não operou máquinas de escaneamento e não decidiu que o suporte físico poderia ser descartado depois da extração do texto. Essas decisões foram tomadas por pessoas, empresas e modelos de negócio que privilegiaram velocidade, escala e eficiência.
A tecnologia apenas executou aquilo que nós escolhemos fazer.


Esse episódio obriga a sociedade a refletir sobre um conceito frequentemente tratado como absoluto: o progresso. Avançar tecnologicamente é uma conquista extraordinária. No entanto, progresso não deveria significar substituir memória por conveniência nem patrimônio por eficiência operacional. A verdadeira inovação acontece quando novas soluções ampliam possibilidades sem exigir o desaparecimento daquilo que constitui nossa identidade cultural.


Bibliotecas, universidades, editoras, museus e empresas de tecnologia têm diante de si um desafio que ultrapassa a inteligência artificial. É necessário desenvolver modelos que conciliem acesso, preservação e responsabilidade histórica. O futuro não precisa ser construído sobre as ruínas do passado.
Talvez esta seja uma das discussões mais importantes da nossa época. Nunca avançamos tanto em inteligência artificial. Nunca produzimos tanta inovação. Mas permanece uma pergunta que ainda não conseguimos responder com a mesma velocidade:
Se preservamos as palavras, mas destruímos a história que lhes dava corpo, o que estamos realmente salvando?
